sábado, 27 de junho de 2009


Rede Mundial de artistas em aliança. Pelo encantamento do mundo.
"O real dever do artista é salvar o sonho." Modigliani
Rede Mundial de Artistas em Aliança

A Rede Mundial Artistas em Aliança, composta por artistas ligados à Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidário, foi criada no encontro internacional Arte e Identidade Cultural, realizado em maio de 2001, em Itapecerica da Serra - SP.
Este encontro contou com a presença de artistas de dezessete países e foi antecedido por um fórum eletrônico com a participação de artistas, e de pessoas ligadas à arte, de várias nacionalidades.
Os artistas em Aliança propõem o reencantamento do mundo como um novo paradigma das relações sociais e da humanidade com a natureza.
O campo da arte que estamos privilegiando é vasto e implica inúmeras conceituações, assim como o papel do artista. Fayga Ostrower, que abriu o encontro internacional acima mencionado, nos fala da arte como o elo dos seres humanos entre si e com o cosmo. Nesta concepção está implícita a arte como afirmação de Eros, afirmação da vida, que se contrapõe a Tânatos, à destruição e morte que hoje conformam a sociedade em que vivemos.
Acreditamos que a arte nos possibilita uma linguagem mais isenta de particularismos, uma linguagem universal. Hoje, mais do que nunca, necessitamos de uma linguagem que possibilite nos comunicarmos. Razão pela qual também atuamos em áreas de conflito, buscando promover uma Cultura da Paz mediada pela arte.

A Rede Mundial de Artistas em Aliança contribui sobre seis grandes óticas:
Ao aproximar pessoas de diferentes povos numa linguagem emotiva e de encantamento;
Realizando debates e chamamentos públicos à Responsabilidade Social dos Artistas;
Estimulando as trocas Interculturais entre diversas experiências de Arte e Cultura;
Produzindo diretrizes de trabalho permanente para cada contexto e o planeta;
Estimulando práticas sociais transformadoras em cada realidade pela transformação de redes locais e globais;
Mobilizando artistas para a construção da Cultura da Paz.
Arte como reencantamento do mundo
por Pedro Garcia

O único pecado do homem é querer se igualar a Deus, me disse um teólogo amigo, perdido no interior do Ceará. Guardei a frase. Depois li Weber, "A ciência como vocação", em que ele define o desencantamento do mundo como possibilidade do homem dominar todas as coisas através do cálculo. Juntei as coisas e concluí que, mais do que querer se igualar, o homem pretende substituir Deus, aposentando o sagrado como algo obsoleto.
E, ao cometer este insano gesto de auto-suficiência, como o arquiteto de Babel, o homem se perdeu e perdeu o seu lugar no mundo.
Neste mundo desencantado, os sentidos da existência, do tempo e do conhecimento tomaram outros rumos. A noção de progresso contempla um tempo linear e sempre melhor, razão pela qual a morte não tem sentido. E se a morte não tem sentido, a vida tampouco. E o conhecimento? O conhecimento fragmenta-se em possibilidades infinitas que o homem não tem condições de abarcar.
E o mundo encantado? Mircea Eliade nos fala de civilizações em que o mito era plenamente vivido. O mundo se comunicava com o homem, e o homem o reconstruía, e reconstruía a si mesmo, através da linguagem dos símbolos. Tudo tinha sentido neste cosmo vivo: o mundo se revela enquanto linguagem, longe do densencantamento que veio se processando na cultura ocidental, até a perda do cosmo.
É difícil rastrear este processo, saber a sua origem. Nietzsche, em "O nascimento da tragédia", ao estabelecer a relação entre a ciência e o mito, nos fala do aniquilamento deste último, fato que determina a expulsão dos poetas da república. Ato desastroso, acerca do qual Boccanera lembra Baldwin:
Quando a civilização trata seus poetasComo tratamos os nossos,Não se pode estar longe de desastre.
Baldwin tinha razão:Nos acostumamos à barbárieFazemos poesia de destroços,
Somos uma tribo resistente,Acompanharemos o galo em seu último grito,Em uníssono.
Esta tribo errante, perambulando pelo mundo, carrega o facho do reencantamento do mundo. Como vejo o reencantamento do mundo? Não como uma volta ao passado mítico - embora pense que o mito deva ser restaurado, mas como reapropriação do presente, naquilo que o presente se oferece como possibilidade de encanto.
Talvez devêssemos fixar o que perdemos, para, depois, estabelecer o que podemos reconquistar. Em termos de linguagem, perdemos a inocência.
O que quero dizer com isto? Quero dizer que ficou vazio de sentido o que enunciamos, razão pela qual é necessário reencontrar a verdade da palavra: a união da palavra com a coisa enunciada. Algo que as crianças conservam, até a percepção de que a palavra é distinta da coisa. Algo que estava dado antes da invenção da escrita, onde a palavra oral instaurava os fatos presentes, preservava o passado e prognosticava o futuro. Nomear significava fazer existir. O ser habitava a linguagem. E os senhores da palavra dominavam os acontecimentos. Daí, a plenitude da poesia e o poder da palavra.
Um dos textos mais antigos de que temos conhecimento, o "Poema babilônico da criação", nos fala de: "quando no alto o céu ainda não havia sido nomeado e embaixo a terra firme não havia sido mencionada por seu nome... quando os deuses ainda não haviam sido criados, nem nenhum nome havia sido pronunciado, nem nenhum destino havia sido fixado..."
Nenhum nome pronunciado: céu, terra , homem, deuses, destino.
Nomear para dar existência. Cinco mil A.C., os babilônicos fixaram esta verdade. Desde então, trilhamos um longo percurso em que a linguagem foi perdendo a sua potência criadora. É necessário buscá-la, reencontrá-la através da criação, da arte. Arte e criação que não se encontram apenas nesta figura recentemente criada, o artista, mas no homem em sua plenitude.
Para isto, é necessário virar o mundo de cabeça para baixo. Inverter a proposição de que ser é ter. Inaugurar o lúdico no cotidiano. Olhar o mundo com espanto. O espanto de estar vivo, tão misterioso quanto o não ser.
Deslumbrar-se. Como Heráclito quando nos diz que a morada do homem é o extraordinário. Talvez aí esteja a chave. Se a morada do homem voltar a ser o extraordinário, o homem terá o reencantamento o mundo.

Um comentário:

Fabiane Salume disse...

Nossa Romelho,adorei o texto e a proposta exposta!!Muito obrigada pela colaboração em nosso blog,espero que outros também colaborem nessa troca.
Um abraço
Fabiane Salume

História da Arte (J) Arte rupestre e Egípcia