sábado, 25 de julho de 2009

Desenhar para ver

Desenho de Leonardo de Vinci




Simples e sem mistério, algumas noções básicas das aulas de desenho (que qualquer um pode pôr em prática) podem abrir nossa percepção e ajudar a mudar nossa relação com o mundo



por Aline Angeli




Impossível esquecer minha primeira aula num curso de desenho. Tinha 13 anos. Enquanto ajeitava a folha de papel no cavalete e abria empolgada minha recém-comprada caixinha de bastões de carvão, o professor acomodou numa mesa à minha frente aquilo que seria o tema do dia: uma jarra de porcelana acompanhada de um copo de vidro. “Quero que, no papel, a jarra continue branca e o copo, transparente”, instruiu ele. Mirei a jarra branca, peguei meu carvão preto e abri o sorriso desconfiado de quem participa de uma pegadinha. “Olhe direito”, insistiu o professor. “Olhe como alguém que não sabe que as porcelanas são brancas, nem que o vidro é transparente”, disse, retirando-se. Olhei. Olhei. Olhei. E foi então que, para minha surpresa, vi. Guardo até hoje o croqui que registrou nos mínimos detalhes a festa de luz e sombra daquelas duas simples peças, cada tom de cinza, cada reflexo claro, cada mancha escura que, juntos, faziam da porcelana, porcelana, e do vidro, vidro. Desnecessário dizer que nunca mais voltei a olhar da mesma forma para as coisas que me cercam.Pura observação“Esqueça as ambições artísticas: antes de tudo, a principal função do desenho é transformar nossa maneira de ver o mundo”, afirma o artista plástico Paulo von Poser, famoso por suas representações de rosas e de paisagens urbanas, que também dá aulas de desenho para os alunos de Arquitetura da Universidade de Santos. Verdade: embora o senso comum insista em mostrar o contrário, o desenho, necessariamente, não tem nada a ver com a “Arte” que tanto respeitamos. Nem com dom. É pura observação e prática: uma prática deliciosa, capaz de proporcionar muito prazer, imensa realização pessoal e que, como toda prática, pode ser aprendida – ou melhor, reaprendida. Sim, todos nascemos com a capacidade de figurar e exercemos essa habilidade livremente até os 7 ou 8 anos – época em que, para pena da maioria, o encanto se quebra, ficamos mais críticos e descobrimos, decepcionados, que nossas garatujas nem de longe conseguem imitar fielmente as formas reais. Não é coincidência também que esse seja justamente o período em que passamos pelo processo de alfabetização, no qual toda a ênfase está centrada no desenvolvimento do raciocínio lógico e da comunicação verbal. Bem mais estimulado, é este nosso lado mais analítico, racional – e, por sua vez, mais cricri – , que irá predominar vida afora, fazendo com que a gente se convença de que não leva jeito para o desenho (assim como para várias outras coisas). Além disso, cristalizando nosso bloqueio, pouco a pouco formamos uma biblioteca particular de estereótipos visuais, com modelos preconcebidos sobre como deve ser a representação do que está na nossa frente. É isso o que faz, por exemplo, com que, ao tentar desenhar um rosto, a gente vá logo traçando o olho como uma canoa, antes mesmo de se dar ao trabalho de conferir os detalhes e a assimetria de sua delicada forma. Ou copiando o coelhinho mimoso do livro da escola, imaginando que é o único modo de desenhar algo “bonito”. Bonito. Certo. Reto. Igual. A expectativa de fazer uma reprodução fotográfica e a tendência de considerar “errado” todo desenho que não retratar à imagem e semelhança seu original são os principais empecilhos de quem tenta fazer as pazes com o lápis. Por isso mesmo, esse é um dos primeiros mitos que o professor Silvio Dworecki procura derrubar entre os alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, durante suas aulas de Desinibição do Traço. “Para copiar o real com exatidão temos a câmera fotográfica, que reproduz formas, cores e texturas como ninguém”, diz. “Logo, se ela é capaz disso tudo, eu fico liberado para fazer o diferente, o que não se parece”, afirma. Sem borrachaTalvez, neste momento, você, caro leitor, esteja se perguntando: “Se estamos liberados, por que raios ela se preocupou tanto com a porcelana?” Simples: porque o desenho começa no olho – e não na mão, ora. Por mais que me esforçasse, jamais teria chegado ao resultado a que cheguei se não tivesse, de fato, “meditado” na frente daquele jarro. Só ao esquecer que ele tinha que ser branco pude perceber o tanto de preto – e de outras cores – que havia ali. Não foi um registro preciso, objetivo. Foi o registro de uma surpresa, de um momento único. Esse é o barato do desenho. “A partir do momento em que os olhos se abrem, tudo se torna igualmente fascinante, igualmente inspirador, igualmente impregnado de sentido”, escreve em Zen Seeing, Zen Drawing: Meditation in Action (“Olhando Zen, Desenhando Zen: Meditação em Ação”, sem edição brasileira) o artista plástico e filósofo norueguês naturalizado americano Frederick Franck, morto no ano passado, aos 97 anos. A cada desenho, mudamos nossa percepção de um objeto, de uma paisagem, de um corpo. “Você nunca mais vai desenhar como alguém que nunca desenhou. Nunca mais vai desenhar como uma criança”, diz, com certa inquietação, Paulo von Poser. Mesmo que decida repetir, recomeçar, nunca será a mesma coisa, nunca partirá do mesmo ponto – e nada é tão signifi cativo quanto reconhecer, pela prática, que nosso olhar muda, que ele é plástico, moldável, poético. De tão carregada de significado, a preocupação em limpar a mente e conservar o olhar virgem diante do mundo foi uma constante no trabalho de artistas como Juan Miró, Van Gogh, Matisse, Paul Klee e tantos outros. “Eles nos oferecem como herança a possibilidade de desenhar ‘errado’, de inventar as cores que não estão nas coisas”, diz Dworecki. Melhor assim. “O acerto é muito chato: todo mundo acerta igual”, afirma o professor. Por isso é que a borracha, nesse caso, só atrapalha. “Desenho que é desenho tem que contar a história de como foi feito, trazer no fundo as cinco ou seis linhas que foram testadas antes que uma fosse escolhida, mostrar que havia outras camadas, outras possibilidades, deixar espaço para que o espectador o complete”, diz Von Poser. É, em resumo, uma questão de dedicar-se a errar. A errar com graça.




Para saber mais Livros:


• Em Busca do Traço Perdido, Silvio Dworecki, Edusp


• Zen Seeing, Zen Drawing: Meditation in Action, Frederick Franck, Bantam Books


• Desenhando com o Lado Direito do Cérebro, Betty Edwards, Ediouro


• À Mão Livre – A Linguagem e as Técnicas do Desenho, Philip Hallawell, Melhoramentos

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