sexta-feira, 31 de julho de 2009

Por uma educação multicultural



Reinventando a roda: experiências multiculturais de uma educação para todos


Azoilda Loretto da Trindade*


Esse texto, na verdade, se propõe a fazer uma aliança com a nossa potência de vida, com nossa autonomia, com nossa criatividade de professoras e professores. Pretendemos dialogar com nossa parcela, com nossa dimensão educadora que se inquieta e se sente desafiada a cada dia, parcela/dimensão desejante, que ora se alegra, ora se desespera, que se sente encantada pela vida, que não se cansa de ler no mundo palavras e ações que possam nos valer e nos possibilitam aprender a trabalhar pedagogicamente, numa perspectiva multicultural crítica, criativa e inclusiva, num mundo marcado por desigualdades e injustiças sociais, étnicas e culturais.

É bom sinalizar que qualquer caminho trilhado no sentido de lidar com as diferenças no cotidiano educacional não é neutro, nem ideal. Todas nós estamos marcadas por nossas visões de mundo, por valores incorporados ao longo da nossa existência, por idéias e ideais construídos ou apreendidos, por concepções a respeito da vida e do mundo. É bom lembrar que a Vida, no singular e no plural, é muito mais abrangente do que nossa condição humana pode captar, compreender, capturar.

Quando nos predispomos, quando somos fisgadas pela percepção da existência da diferença como valor, como expansão da riqueza humana e não como um demérito, perdemos o chão das verdades, da razão, das certezas fechadas e absolutizadas e nos colocamos no campo da dúvida, do devir, da pergunta, da inquietação, da errante busca, da incerteza.

Qualquer concepção teórica ou prática de trabalhar com as diferenças na sala de aula, no cotidiano escolar é passível de críticas, de análise, de necessidades, de acertos, ajustes. TODAS são insólitas, na medida da metamorfose constante da própria Vida, afinal, "nenhum rio passa duas vezes no mesmo lugar", lembram? Ora, se a diferença é a regra, se tudo é devir, se tudo é movimento, é dinâmica, o problema que nos coloca a Vida, o problema que nos desafia é como sermos capazes de ver, perceber, conhecer, interagir com o diferente de nós. E é bom destacar que somos diferentes, inclusive, de nós mesmos... Somos diferentes de nós mesmos a cada momento: um livro que lemos, um filme que vemos, um acontecimento que vivenciamos, um carinho que recebemos ou damos, uma injustiça que presenciamos, praticamos ou sofremos, o tempo passado, o sol, o frio, o calor, o amor ou desamor, a violência, o dia-a-dia... Tudo nos altera a cada instante.

Estamos diante do desafio, talvez similar ao momento que antecedeu à invenção da roda, talvez um desafio menos conceitual e mais prático, mais vivencial, mais visceral, que nos coloca diante dos nossos próprios preconceitos, do nosso racismo, do nosso machismo, do nosso elitismo. Ora, nosso maior desafio, talvez, seja enfrentar o que está dentro de nós, no nosso sangue, no nosso coração, na nossa mente, em nós mesmos.

Trabalhar com a percepção da existência da Diferença, como uma constante, obriga-nos a rever valores, posições, preconceitos:


Imagine, por exemplo, quanto esforço é necessário para que possamos admitir que fazem parte da espécie humana tiramos como Hitler, ou um pedófilo, ou um criminoso. É fácil perceber a humanidade no que é espelho, no que consideramos ser semelhante a nós, ou no que desejamos ser e valorizamos. É fácil reconhecer, portanto, a humanidade de Gandhi, da criancinha que achamos lindinha, limpinha e arrumadinha. Mas naquele ou naquela que desprezamos, abominamos, desqualificamos, desejamos ver longe de nós, tal reconhecimento é de fato muito difícil.

O que demanda em nós de energia para a desconstrução de preconceitos ao vermos inteligência, por exemplo, numa criança com algum tipo de síndrome, ou numa criança ou adulto com paralisia cerebral. Ao percebermos força, potência em pessoas com alguma deficiência, não admitindo pensar nelas como "coitadinhas". Ao percebermos essas pessoas como mais uma expressão da vida humana. E não como vítimas de um castigo, de uma desgraça, de uma infelicidade para a pessoa ou para os seus pais.

O que demanda de desconstrução de verdades percebermos a sabedoria nas populações indígenas, ou para desarticularmos a sinonímia entre a palavra "escravo" e os povos afrodescendentes no Brasil. Ou, ainda, para conseguirmos deixar de ver como "natural" a idéia contida na expressão "manda quem pode e obedece quem tem juízo", muito cara nos espaços de trabalho, sobretudo no escolar, expressão elitista que coloca a obediência como um valor, um mérito, e desqualifica o sujeito, subtrai dele a inteligência, sua capacidade de pensar, ponderar, discordar, ter contribuições, criar.

O que se exige de nós, em termos de força, não nos silenciarmos diante de qualquer tipo de discriminação, de injustiça social, cultural, ou de qualquer espécie? O que de energia é exigido de nós, em termos de aprendizagem, crítica e reflexão, para conseguirmos reconhecer, analisar e avaliar tais situações?

Imagine ver no analfabeto sabedoria, afinal, a alfabetização em massa é um fenômeno recente na história da humanidade e ainda hoje há culturas eminentemente orais. Constatar que a escola não é o único espaço de desenvolvimento dos seres humanos (embora seja um espaço privilegiado para isto). Imagine ver e valorizar o saber que não é cientifico, a sabedoria popular que diz, por exemplo, que galo velho bota ovo, que tem cobra que de noite mama o leite da mulher e coloca o rabo na boca da criança, que os astros influenciam a nossa vida, que tem gente com olhar de "seca-pimenteira"!

Imagine admitir que a escola não é o lugar, como muitos dizem, onde a criança se prepara para "ser alguém na vida", ou para "ser gente", ou para se preparar para a vida. Gente e alguém todos nós já somos e a vida já está sendo, aqui e agora, onde quer que estejamos.

Quanto de energia física, mental, intelectual precisamos dispender para ver que nossa visão religiosa, pedagógica, política, sexual, não é a melhor para toda a humanidade, é apenas a nossa visão que pode ou não ser compartilhada por muitos? Que a idéia da maioria não é necessariamente a melhor para todos?

E se a gente não sofrer em admitir tudo isto, quanto de humildade precisamos ter para não nos sentirmos melhores ou piores que aqueles que consideramos errados, reacionários e conservadores...
Ora, uma educação multicultural, criativa e inclusiva, no sentido de incluir na pauta as diferenças, o contato, o diálogo, a interação com as diferenças, coloca a própria escola num lugar de questionamento quanto ao seu papel, seu sentido, seu significado. Qual o papel da escola num contexto multicultural que se sabe político, e que não se propõe racista, nem elitista, nem machista, nem etnocêntrico... É essencial percebermos a dimensão disto tudo. O que nós, como educadores, faremos? E como faremos? Como nosso currículo se configurará? Como serão e deverão ser nossas aulas, nossa avaliação, nossa sala de aula? Como será nossa postura? Como não sermos tão individualistas e julgarmos que os outros são muito diferentes de nós, a ponto de nos transformarmos numa ilha cercada de ilhas por todos os lados? Como não ser tão universalistas a ponto de apagarmos as singularidades culturais, políticas, sexuais, sociais, intelectuais? Como levar em consideração todos os segmentos da escola?Como enfrentar que nossas mais belas intenções e ações são ainda incipientes, que são muito poucas, embora necessárias? Por exemplo, trabalhar o multiculturalismo na escola não é apenas colocar imagens de todas as etnias que compõem nossa escola nos murais, festejar o Dia do Índio e o Dia Nacional da Consciência Negra. Não é apenas debater as políticas de cotas e outras ações afirmativas. Nem ter a imagem de uma Virgem negra como padroeira do Brasil. Tampouco ter o atleta do século como um ícone nacional (se o que conta, nesse caso, é o dinheiro e não a cor da pele).

Acreditamos que uma educação multicultural, inclusiva, crítica e criativa demanda mudanças radicais nas estruturas de poder da escola e da sociedade, demanda mudanças em nós mesmos e mudanças de paradigmas. Aliás, para as mudanças de paradigmas, para incorporarmos outros atores e interlocutores, é necessário revermos os saberes socialmente valorizados e historicamente construídos. A Psicologia, a Sociologia, a História, a Matemática, a Biologia, a Física, as Ciências de um modo geral terão que ser revistas e rediscutidas. As disciplinas poderão até ser ultrapassadas, como aponta o professor Ubiratan D’Ambrósio (2002).

É um campo delicado, sobretudo num mundo que assiste ao recrudescescimento do racismo, do conservadorismo, da intolerância, que assiste a guerras religiosas e vê a violência se expandir galopantemente. Que percebe que o poder do capital se fortalece a cada dia, em detrimento da vida e da sobrevivência da própria espécie e do planeta.

Temos que nos saber aprendizes, eternos aprendizes, na medida em que estamos no momento de inventarmos a roda de um trabalho multicultural na educação. Iremos inventar, porque não existirá O trabalho único, que deverá ser seguido, imitado, copiado pelos demais. Cada grupo, cada coletividade, cada comunidade escolar deverá buscar construir sua roda (ou suas rodas), mas como não se trata de ilhas de pessoas, como o conhecimento é coletivo e construído em comunhão, algumas palavras-ações básicas devem ser fortalecidas:

A autonomia como capacidade de cada um tomar sus próprias decisões, mas a partir da interação e diálogo com pontos de vistas deferentes e diversos dos nossos;

O diálogo que implica ouvir o outro, escutar e se deixar preencher com a palavra, com a idéia, com a perspectiva do outro;

O movimento que concretiza a ação, que realiza a mudança, a criação e

O contato. Não dá para se trabalhar com educação multicultural apenas no gabinete, na sala de estudo individual, no computador, através dos textos, da palavra escrita. O outro e nós temos um cérebro, uma mente, produzimos palavras, poesia, virtualidade, distanciamentos. Mas temos também um corpo que tem cheiro ou cheiros, cor, texturas, odores, sabores, expressões corporais... E esta percepção só acontece realmente como contato, com o encontro.

Como diz a cosmovisão dominante, judaica cristã, somos descendentes de Babel, descendentes de um povo que falava a mesma língua e que tentou chegar aos céus através de uma torre, desafiando Deus. Castigados por Deus, homens e mulheres perderam a harmonia e foram condenados à multiplicidade, a falarem várias línguas e a se descentrarem na Terra. Sendo assim, que sejamos pelo menos uma Babel feliz, encantada com a multiplicidade, com o Outro.

Como conta uma lenda africana Ioruba da criação do ser humano e do mundo, somos resultantes da ação de um Deus – o Orixá que tinha bebido vinho de palma – e fomos criados em meio a soluços ébrios. Segundo a lenda, a cada momento um ser foi criado e nunca um era igual ao outro. Logo, somos seres diversos, singulares e irregulares somos todos diferentes, mas nos reconheçamos a todos como uma criação divina.

Como prêmio, contingência ou como castigo, somos fadados à multiplicidade e a história nos coloca diante do grande desafio de aceitar a diferença e aprendermos ecologicamente, com respeito, sabedoria, humildade, quiçá com amor, a lidar com elas em todos os espaços, sobretudo, o que é o nosso caso, na escola. Neste caso, precisamos fortalecer nossa autonomia, nossa capacidade de ler e aprender no/com o mundo, assumirmos a nossa responsabilidade em escrever no e para o mundo nossas experiências na busca da invenção da nossa roda, a roda de trabalhos multiculturais conscientes, críticos, criativos e, assim, contar essas experiências, esse exercício, sair dos muros da escola no sentido de compartilhar nossas ações com outros coletivos e fortalecer a complexa rede de produção de saberes da humanidade.

Referências:

DEL PRIORE, Mary. Corpo a corpo com a mulher: Pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: Editora SENAC. São Paulo, 2000.

FUGANTI, Luiz Antonio. Saúde, Desejo e Pensamento. In: Saúde e Loucura 2: 19-82. São Paulo: Editora Hucitec (s/d).

MORIN, Edgar. Ensinar a Condição Humana. In: Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo: Cortez, Brasília, DF, UNESCO, 2000.

TRINDADE, Azoilda Loretto da. O racismo no cotidiano escolar. Rio de Janeiro: FGV/IESAE. Dissertação de Mestrado, 1994.



NOTAS:



* Professora do Ensino Fundamental e Superior. Pesquisadora da UFRJ. Ativista do movimento anti-racista. Consultora desta série.

Fonte:http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2002/mee/meetxt5.htm

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