segunda-feira, 26 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Pedagogia do parangolé - novo paradigma em educação

Marco Silva*


Assim como inspira a inquietação dos programadores da TV, a
interatividade também pode despertar o interesse dos professores para
uma nova comunicação com os alunos em sala de aula presencial e
online. Afinal, tanto a mídia de massa quanto a sala de aula estão diante
do esgotamento do mesmo modelo comunicacional que prevaleceu no
século XX: a transmissão que separa emissão e recepção, a lógica da
distribuição.
O termo apareceu na década de 1970 no contexto da crítica à mídia
unidirecional e virou moda a partir de meados dos anos 80 com a
chegada do computador com múltiplas janelas (windows) em rede.
Janelas que não se limitam à transmissão, permitem ao usuário
adentramento labiríntico e manipulação de conteúdos.
Em nossos dias, mesmo ganhando maturidade teórica e técnica com o
desenvolvimento da internet e dos games, o termo interatividade sofre
banalização quando usado como "argumento de venda" em detrimento
do prometido mais comunicacional. Basta ver a enxurrada de aplicações
do termo, desde shampoo interativo e tênis interativo até mesmo a
escola interativa, nesse caso apenas por estar equipada com
computador e internet e não por superar a velha pedagogia da
transmissão.
Vale a pena atentar para o sentido depurado do termo interatividade
que encontra seus fundamentos na arte "participacionista" da década de
1960, definida também como "obra aberta" por Umberto Eco. O
"parangolé" do artista plástico carioca Hélio Oiticica é um exemplo
maravilhoso dessa arte.
Interagir não é assistir
O parangolé rompe com o modelo comunicacional baseado na
transmissão. Ele é pura proposição à participação ativa do "espectador"
- termo que se torna inadequado, obsoleto. Trata-se de participação
sensório-corporal e semântica e não de participação mecânica. Oiticica
quer a intervenção física na obra de arte e não apenas contemplação
imaginal separada da proposição. O fruidor da arte é solicitado à
"completação" dos significados propostos no parangolé. E as proposições
são abertas, o que significa convite à co-criação da obra. O indivíduoveste
o parangolé que pode ser uma capa feita com camadas de panos coloridos
que se revelam à medida que ele se movimenta correndo ou dançando.


Parangolé de H. Oiticica - 1964
Oiticica o convida a participar do tempo da criação de sua obra e oferece
entradas múltiplas e labirínticas que permitem a imersão e intervenção
do "participador", que nela inscreve sua emoção, sua intuição, seus
anseios, seu gosto, sua imaginação, sua inteligência. Assim a obra
requer "completação" e não simplesmente contemplação.


Segundo opróprio Oiticica, "o participador lhe empresta os significados
correspondentes - algo é previsto pelo artista, mas as significações
emprestadas são possibilidades suscitadas pela obra não previstas,
incluindo a não-participação nas suas inúmeras possibilidades também".
Esta concepção de arte (ou "antiarte", como preferia Oiticica),
inconcebível fora da perspectiva da co-autoria, tem algo a sugerir ao
professor: mesmo estando adiante dos seus alunos no que concerne a
conhecimentos específicos, propõe a aprendizagem na mesma
perspectiva da co-autoria que caracteriza o parangolé e a arte digital. O
professor propõe o conhecimento. Não o transmite. Não o oferece à
distância para a recepção audiovisual ou "bancária" (sedentária,
passiva), como criticava o educador Paulo Freire.


Desafio para o professor

Inspirado no parangolé, o professor propõe o conhecimento aos
estudantes, como o artista propõe sua obra potencial ao público. Isso
supõe, segundo Thornburg & Passarelli, "modelar os domínios do
conhecimento como 'espaços conceituais', onde os alunos podem
construir seus próprios mapas e conduzir suas explorações,
considerando os conteúdos como ponto de partida e não como ponto de
chegada no processo de construção do conhecimento". A participação do
aluno se inscreve nos estados potenciais do conhecimento arquitetados
pelo professor de modo que evoluam em torno do núcleo preconcebido
com coerência e continuidade. O aluno não está mais reduzido a olhar,
ouvir, copiar e prestar contas. Ele cria, modifica, constrói, aumenta e,
assim, torna-se co-autor. Exatamente como no parangolé, em vez de se
ter obra acabada, têm-se apenas seus elementos dispostos à
manipulação.
O professor disponibiliza um campo de possibilidades, de caminhos que
se abrem quando elementos são acionados pelos alunos. Ele garante a
possibilidade de significações livres e plurais e, sem perder de vista a
coerência com sua opção crítica embutida na proposição, coloca-se
aberto a ampliações, a modificações vindas da parte dos alunos. Uma
pedagogia baseada nessa disposição à co-autoria, à interatividade,
requer a morte do professor narcisicamente investido do poder. Expor
sua opção crítica à intervenção, à modificação, requer humildade. Mas,
diga-se humildade e não fraqueza ou minimização da autoria, da
vontade, da ousadia. Seja na sala de aula equipada com computadores
ligados à Internet, seja no site de educação a distância, seja na sala de
aula "infopobre", o professor percebe que o conhecimento não está mais
centrado na emissão, na transmissão. Na era digital ou cibercultura
os atores da comunicação têm a interatividade e não mais a separação
da emissão e recepção própria da
mídia de massa e da "cultura da escrita", quando autor e leitor não
estão em interação direta. Assim o professor propõe o conhecimento à
maneira do parangolé. Assim ele redimensiona a sua autoria: não mais
a prevalência do falar-ditar, da distribuição, mas a perspectiva da
proposição complexa do conhecimento à participação ativa dos alunos
que já aprenderam com o joystick do videogame e hoje aprendem com
o mouse. Enfim, a responsabilidade de disseminar um outro modo de
pensamento, de inventar uma nova sala de aula, presencial e a
distância, capaz de educar em nosso tempo.



*Sobre o autor:
Marco Silva, sociólogo, doutor em educação e professor da UERJ e da Estácio de Sá, é autor do livro Sala de aula
interativa (Quartet, 2000) e coordenador do livro Educação online (Loyola, 2003).

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

História da Arte (J) Arte rupestre e Egípcia